CAROLINA VELASQUEZ  PORTFÓLIO

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           PERFORMANCE

         LA XAMANA

               CASA DO POVO 2018

Trecho de artigo Kullak, El cuerpo que siente de Carolina Velasquez. 2019

 

Primeira vez onde usei uma vestimenta coletiva, a escolha do tecido, da cor vermelha ( utilizada em rituais andinos). Quando as pessoas rodavam, o tecido se movimentava como vento, ficando a personagem do centro, como uma xamã pois esta desempenha as funções de catalisar os movimentos e descondicionar os corpos do centro, narrando o ritual - performance para quem se entregava ao dançar, em estar junto.
 
Foram declamados textos de Eduardo Galeano e Clarissa Pinkola Estés, escritores e pesquisadores que tem como tema a memória ancestral ligada ao sul geográfico. Um texto foi lido pela artista Verônica Gelesson, foi essencial a possibilidade de outra pessoa ler e com o critério da pessoa estar inteiramente consciente da narrativa e dos objetivos da performance, para seguir minhas estratégias diante do grupo e ao mesmo tempo ficar livre para criar ao declamar.

O corpo gestual do boliviano é diferente, culturalmente, do brasileiro, como conseqüência temos um corpo com gestos mais abertos e outro com movimentos ligados ao chão, por isso um dos ganhos do dia e uma grande surpresa foi a presença das mulheres do coletivo Parteiras bruxonas, residentes naquela instituição tal como o coletivo Sï, yo puedo!, que imediatamente se entregaram aos exercícios de respiração no inicio do ritual performance; elas lideraram a expansão de alguns gestos e movimentos corporais frente ao grupo inteiro, realmente acontecendo um objetivo secreto que eu tinha: o do intercâmbio cultural corpóreo pois os bolivianos, por sua vez, participaram e lideraram com sua extrema escuta e aterramento, um tempo interno sereno que dilata o tempo cotidiano de movimentos rápidos e expansivos que observo nos brasileiros.

No início, fiz uma introdução `a comunidade boliviana sobre o porquê de montar um altar `a Pachamama de forma não convencional, pois senti que muitos se assustaram e suspeitaram de uma apropriação desrespeitosa de minha parte em relação à sua cultura, disse que sou filha de bolivianos que vieram morar no Brasil e fui separada dos meus avós e família  e quando criança tinha uma saudade de algo que não conhecia e quando adulta descobri que sentia saudades dos ritos, símbolos e como artista reconstruía minhas memórias perdidas; imediatamente os mais velhos me rodearam me mostrando imagens no celular sobre símbolos que eu poderia me alimentar, com um carinho patriótico.

Foram realizados exercícios de respiração coletiva, soltura do corpo pelo terraço com a ajuda de tecidos e instruções por parte da narradora para que rodopiassem sentindo o vento com o objetivo de sensibilizar a noção de presença e aterramento sobre o corpo dos participantes, um estado meditativo que evita o estresse de quantidade excessiva na mente. A seguir, todos foram convidados a participar de um ritual de agradecimento pela vida, como é realizado na Bolívia no ritual La Koa em homenagem à Pachamama; as pessoas escolhiam entre grãos como favas, milhos, feijão, pipoca, alguns de origem boliviana, outros de origem ou memória brasileira.

Havia um músico percussionista especialmente chamado para tocar no momento seguinte, quando desenrolo partes do meu vestido vermelho, desenrolam grandes braços onde cada participante segura uma ponta com a orientação corporal dos assistentes, neste momento é interessante colocar que meus assistentes são orientados a não usar a fala e sim o corpo para mostrar o que deve ser feito ou o caminho de possibilidades dentro daquele espaço; o meu corpo que agora esta no centro da vestimenta começa a dançar, de acordo com o vento, a música e logo, com o movimento dos corpos dos participantes, formando uma celebração coletiva, uma dança de muitas pessoas, um ritual realizado para o vento que acontece dentro e fora das pessoas ali envolvidas.

Uma fumaça de cor rosa é liberada ao final onde, segundo a narradora, a fumaça leva todas os agradecimentos à Pachamama; os participantes dançam e elevam aos céus seus pagos ( pequenas trouxas de papel contendo os grãos andinos e brasileiros, com que fizeram suas oferendas). Ao se despedir, um senhor boliviano que liderava o grupo desde o início, me saudou dizendo: _ Bela maneira de celebrar Pachamama.

Coletivo Sí, yo puedo! O coletivo luta pelo pleno direito a migração, e acredita na educação como principal ferramenta para a construção de uma sociedade efetivamente inclusiva e multicultural.

Parteironas Bruxonas, formada por estudantes do curso de Obstetrícia da EACH-USP, a Coletiva Parteironas Bruxonas questiona o modelo biomédico de saúde que é reproduzido atualmente, pautado na hipermedicalização, institucionalização da saúde, mercantilização e intervenção nos corpos das mulheres.A Coletiva desenvolve oficinas e rodas de conversa para promover o autocuidado das mulheres em sua integralidade e complexidade, colocando-as no centro do processo do cuidado.(...)